Big techs devem investir US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA em 2026, mas Moody's alerta para risco de excesso de capacidade
Volume é seis vezes maior que o registrado pelas mesmas empresas em 2022, segundo relatório da agência de classificação de risco

Os maiores provedores globais de computação em nuvem devem investir cerca de US$ 700 bilhões em infraestrutura ao longo de 2026, em um movimento impulsionado quase inteiramente pela corrida por capacidade computacional para rodar aplicações de inteligência artificial. O número, divulgado em relatório da agência de classificação de risco Moody's Ratings, representa um salto expressivo: seis vezes o volume de investimento (capex) registrado pelas mesmas empresas hyperscaler em 2022, antes da explosão de demanda por IA generativa que se seguiu ao lançamento do ChatGPT.
Apesar da escala descrita pela própria Moody's como "sem precedentes", a agência avalia que a demanda por capacidade de IA ainda supera amplamente a oferta disponível no mercado atual — ou seja, mesmo com o volume recorde de investimento, a infraestrutura de datacenters, chips e energia elétrica dedicada a processamento de IA segue insuficiente para atender toda a demanda projetada pelas próprias empresas de tecnologia e por seus clientes corporativos.
O relatório, no entanto, não é isento de alertas. A Moody's chama atenção para o risco crescente de excesso de capacidade e retorno financeiro mais fraco do que o projetado, caso a demanda por aplicações de IA generativa não cresça no ritmo necessário para justificar o volume de investimento atual. Esse tipo de descompasso — investimento pesado antecipando uma demanda que pode não se concretizar no ritmo esperado — é um padrão já observado historicamente em outros ciclos de expansão de infraestrutura tecnológica, e tem gerado cautela entre investidores institucionais que acompanham de perto o balanço das grandes empresas de tecnologia.
O avanço dos investimentos em infraestrutura acompanha, e em boa parte é motivado por, a explosão de receita das próprias empresas de nuvem ligada a aplicações de inteligência artificial — cada nova geração de modelo de linguagem, como os lançamentos quase simultâneos de Anthropic, Google e OpenAI registrados nas primeiras semanas de setembro, depende diretamente dessa infraestrutura para treinamento e para atender ao volume de uso em produção.
Projeções de mercado compiladas por diferentes analistas apontam que o setor global de inteligência artificial deve superar a marca de US$ 900 bilhões em valor de mercado ainda em 2026. Em horizonte mais longo, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) estima que a IA deve movimentar globalmente US$ 4,8 trilhões até 2033 — praticamente cinco vezes o valor atual do setor, caso a projeção se confirme.
No Brasil, especificamente, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028, direcionados a infraestrutura, pesquisa e formação de mão de obra qualificada para a área — um volume proporcionalmente menor que o investimento das gigantes globais, mas que sinaliza a tentativa do país de não ficar de fora da corrida por capacidade de processamento e desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial em escala nacional.
O contraste entre otimismo de demanda (a Moody's reconhece que a oferta ainda não alcança a procura) e cautela sobre retorno financeiro (o risco de excesso de capacidade caso a demanda não sustente o ritmo) resume bem o momento atual do setor: ninguém, entre os grandes players, está reduzindo investimento — mas o mercado financeiro já monitora de perto o ponto em que gasto e retorno podem deixar de andar lado a lado.








