Entre o medo e a omissão: o Brasil não pode assistir à corrida da IA da arquibancada

Publicado em 14/09/2026 às 23:16
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Jefferson Lobo analisa a disputa geopolítica em torno da inteligência artificial e defende que vigilância não pode virar sinônimo de passividade

Entre o medo e a omissão: o Brasil não pode assistir à corrida da IA da arquibancada

Os fatos

Quem
Presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Mike Johnson; Head Executivo de Marketing do Sistema Fiep e consultor em IA, Jefferson Lobo; Brasil; China; EUA; Japão; Coreia do Sul; Holanda; Alemanha; Indonésia; África do Sul; Paquistão; Rússia; Irã; Moonshot AI
O quê
Debate mundial sobre inteligência artificial; disputa por liderança tecnológica; formação de blocos geopolíticos em IA; desenvolvimento de modelos de IA; discussão sobre regulação de IA; criação do marco legal de IA no Brasil (PL 2338); necessidade de o Brasil construir sua própria governança e posição competitiva em IA.
Quando
Na última semana (data não especificada); em julho (lançamento da WAICO e Kimi K3); agora (momento atual da discussão e ação do Brasil).
Onde
EUA; China; Japão; Coreia do Sul; Holanda; Alemanha; Xangai (sede da WAICO); Indonésia; África do Sul; Paquistão; Rússia; Irã; Brasil (no Congresso, dentro de empresas).
Por quê
Regulamentar rápido demais a IA pode custar a liderança tecnológica (para os EUA); a IA é um ativo estratégico e uma disputa geopolítica; a necessidade de o Brasil não assistir de fora e ter sua própria estratégia em IA.
Como
Através de debates políticos e tecnológicos; formação de alianças (Pax Silica, WAICO); desenvolvimento de modelos de IA (Kimi K3); regulação (PL 2338 no Brasil); construção de governança própria dentro das empresas.

Na última semana, o presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Mike Johnson, disse à CNN algo que resume o nervo exposto do debate mundial sobre inteligência artificial: regulamentar rápido demais pode custar aos americanos a liderança tecnológica para a China. Não é retórica de ocasião. É a tradução política de uma disputa que já tem nome, lado e infraestrutura — e que, segundo o Head Executivo de Marketing do Sistema Fiep e consultor em IA Jefferson Lobo, o Brasil já não pode mais tratar como um debate distante.

"Não é retórica: o Brasil já está dentro de um dos dois blocos que estão desenhando as regras do jogo mais importante da década — e isso aconteceu sem que a maior parte da sociedade brasileira sequer percebesse que a escolha estava sendo feita", afirma Lobo, autor do Método DEL, metodologia para treinar agentes de IA com identidade autoral.

## Dois blocos, duas metáforas

De um lado, Washington trata a IA como ativo estratégico "comparável a armas nucleares" — algo a ser protegido, controlado, mantido sob domínio de poucos. Reuniu Japão, Coreia do Sul, Holanda e Alemanha numa aliança informalmente chamada de Pax Silica: controle de semicondutores, infraestrutura computacional e minerais críticos. Do outro lado, Pequim prefere a metáfora da energia nuclear — algo que se compartilha, sob cooperação internacional. Em julho, lançou a W.A.I.C.O., organização intergovernamental sediada em Xangai que já reúne 29 países com penetração profunda no Sul Global. Indonésia, África do Sul, Paquistão, Rússia, Irã. E o Brasil.

Para Lobo, o simbolismo das duas metáforas escolhidas por Washington e Pequim não é acidental. "Uma trata a tecnologia como arma a ser guardada a sete chaves. A outra, como energia a ser compartilhada sob supervisão. Nenhuma das duas é neutra — as duas são estratégia disfarçada de princípio", avalia.

## O controle de hardware não controla mais a história

O caso mais didático desse impasse é o Kimi K3, modelo da chinesa Moonshot AI lançado em julho. Ficou entre os melhores do mundo nos principais benchmarks — a um preço muito abaixo do que cobram os laboratórios americanos. Os controles de exportação de chips seguem restringindo o que a China consegue construir na camada de hardware. Mas não restringem em nada a capacidade de modelos chineses de código aberto circularem pelo mundo pela camada de software, onde são muito mais difíceis de conter do que uma cadeia de suprimentos física. Hoje, modelos chineses já respondem por 41% dos downloads mensais no Hugging Face, a maior comunidade global de IA aberta — superando os Estados Unidos.

"Quem apostou em fechar a porta da frente descobriu que a janela dos fundos estava aberta o tempo todo", resume Lobo.

Esse é o pano de fundo da segunda narrativa em disputa: de um lado, quem defende testes obrigatórios de segurança pré-lançamento — risco cibernético, bioarmas, perda de controle humano sobre o sistema — como condição para acesso ao mercado. Do outro, quem argumenta, como Mike Johnson, que esse tipo de trava regulatória tem efeito inibidor justamente sobre quem mais precisaria de agilidade pra competir. Na leitura de Lobo, nenhum dos dois lados está inteiramente errado. "E é exatamente por isso que a resposta não pode ser escolher um lado e parar de pensar", pondera.

## O Brasil já está desenhando sua própria régua — a pergunta é se vamos usá-la

Enquanto isso, o Congresso brasileiro avança com o PL 2338, o marco legal da IA no país, seguindo o modelo europeu de classificação por nível de risco e criando o Conselho Brasileiro de Inteligência Artificial para coordenar a governança entre a ANPD e até cinco ministérios. É um esforço que Lobo reconhece como sério e tecnicamente bem construído — mas insuficiente sozinho. "Regulação, sozinha, não é posição estratégica. Regulação diz o que não se pode fazer. Não diz o que vamos construir", diz.

É nesse ponto que o especialista defende sua tese central: vigilância e presença não são contraditórias, são a mesma tarefa vista de dois ângulos. "Sim, precisamos estar atentos a quem está movendo as peças da IA no planeta: dois blocos geopolíticos com interesses que não são os nossos, disputando controle de infraestrutura, dados e narrativa. Ingenuidade aqui custa caro. Mas vigilância não pode virar sinônimo de passividade", afirma.

"Não dá pra assistir essa corrida da arquibancada esperando que a poeira assente pra só então decidir o que fazer — porque quando a poeira assentar, as regras já vão ter sido escritas por quem estava jogando, não por quem estava assistindo", completa.

## Da geopolítica para dentro da empresa

Lobo leva o argumento pro terreno onde atua diariamente: lideranças e times de marketing que ainda tratam IA como ferramenta importada, de prompt genérico, sem nenhum critério próprio sobre como ela deve se comportar, o que pode responder, com que identidade fala em nome da marca.

"Quem espera o cenário geopolítico se resolver pra só então agir vai herdar uma IA desenhada com as prioridades de outra economia, de outra cultura regulatória, de outro interesse estratégico. Quem constrói governança própria agora — critério, identidade, controle sobre como a tecnologia é aplicada dentro de casa — é quem realmente ocupa espaço na mesa em vez de só ler a ata da reunião depois", diz.

Para ele, a pergunta que o momento coloca não é "seguimos os Estados Unidos ou a China". "É se o Brasil vai tratar inteligência artificial como algo que se importa e se regula, ou como algo que também se constrói, com posição competitiva própria e governança que reflita nossos critérios — não só os alheios", conclui Jefferson Lobo.

Perguntas frequentes

Qual é a preocupação principal dos Estados Unidos sobre a regulação da IA?

O presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Mike Johnson, expressou a preocupação de que regulamentar a IA rápido demais pode custar aos americanos a liderança tecnológica para a China.

Qual a tese central de Jefferson Lobo sobre a posição do Brasil na corrida da IA?

Jefferson Lobo defende que vigilância e presença não são contraditórias, mas sim a mesma tarefa vista de dois ângulos, e que o Brasil precisa construir sua própria governança e posição competitiva em IA, em vez de apenas importar e regular a tecnologia.

O que o Brasil está fazendo em relação à regulação da IA?

O Congresso brasileiro está avançando com o PL 2338, o marco legal da IA no país, seguindo o modelo europeu de classificação por nível de risco e criando o Conselho Brasileiro de Inteligência Artificial.

Redação Vozes ParanaensesInternacional · PR
Corrigir esta matériaPolítica editorialConteúdo produzido com assistência de IA e revisão humana.
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