A "denúncia" que não resistiu à noite: como um ataque à Fiep abriu a pré-campanha de 2026 no Paraná
Levantamento de dados errados de custo com jardinagem, foi usado pelo irmão do pré-candidato ao governo Sandro Alex, para atingir o presidente da Fiep

Os fatos
- Quem
- Deputado Marcelo Rangel (acusador); Sistema Fiep, Sesi, Senai e IEL (alvo da acusação); Sandro Alex (irmão de Rangel); Ratinho (candidato ao governo); Edson Vasconcelos (presidente da Fiep); Sergio Moro (senador); Feturismo (apoiador da Fiep)
- O quê
- Denúncia sem checagem de suspostos de gastos de R$ 53 milhões da Fiep com jardinagem, desmentida pela federação como erro de classificação. O incidente marcou o início da pré-campanha de 2026 para o governo do Paraná.
- Quando
- Março (quando a aparente manobra política aconteceu); 2025 (ano da previsão de gastos citada); 2024 e 2025 (período dos gastos efetivos com jardinagem)
- Onde
- Assembleia Legislativa do Paraná (Alep); Palácio Iguaçu (alvo da corrida eleitoral); Ponta Grossa (cidade da derrota de Rangel)
- Por quê
- Inviabilizar a possível candidatura de Edson Vasconcelos, ligada a Sergio Moro, na pré-campanha de 2026 ao governo do Paraná.
- Como
- Marcelo Rangel circulou um número falso de gastos da Fiep; a Fiep respondeu com nota técnica e auditoria; Sergio Moro atacou Rangel nas redes sociais; entidades do setor produtivo apoiaram a Fiep.
A primeira grande manobra política da corrida ao Palácio Iguaçu, aconteceu no último março, quando um número passou a circular pelos corredores da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) como se fosse uma sentença: R$ 53 milhões. O deputado Marcelo Rangel, irmão do Sandro Alex ( anunciado nessa semana por Ratinho, candidato ao governo do Palácio), afirmou que esse seria o valor gasto pelo Sistema Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) com serviços de jardinagem em 2025.
Porém, esse e valor não existia. A resposta da Fiep veio no mesmo dia em que a denúncia ganhou repercussão. Em nota técnica, a federação afirmou que os R$ 53 milhões resultavam de um erro de classificação no Portal da Transparência, no qual contratos de facilities, um pacote mais amplo que inclui limpeza, conservação, apoio operacional e manutenção predial nas mais de 50 unidades do Sistema Fiep, que reúne também Sesi, Senai e IEL — haviam sido lançados, por engano, sob a rubrica única de "jardinagem". Segundo a auditoria interna da federação, encaminhada formalmente aos Tribunais de Contas, o valor efetivamente destinado a jardinagem pagos entre 2024 e 2025, foi de aproximadamente R$ 4,3 milhões nas mais de 50 unidades do sistema em todo o estado. A inconsistência ocorreu por uma classificação equivocada de rubrica.
O que estava em jogo em março
A resposta para "por que agora" está no calendário. Em março de 2026, faltavam poucas semanas para o fim da janela partidária, e o nome de Edson Vasconcelos já circulava como opção para compor a chapa de Sergio Moro (então em vias de filiação ao PL).
Colocados lado a lado, os dois fatos — a denúncia de março e a chapa prenunciada entre Moro e Edson — apontam para o cenário: o ataque de R$ 53 milhões teve menos a ver com jardinagem do que com tentar inviabilizar, ainda na largada, um nome que reforçaria o palanque de Moro com um perfil raramente visto em disputas estaduais, o de um dirigente empresarial de peso junto ao setor produtivo paranaense, natural de Cascavel, portanto capaz de agregar o Oeste do estado à candidatura.
O próprio Vasconcelos não escondeu essa leitura. Em entrevista à Tribuna do Paraná, ao ser questionado sobre a polêmica, respondeu que o assunto estava "totalmente resolvido" e classificou o episódio como parte de um movimento articulado contra a possibilidade de seu nome entrar no jogo eleitoral.
A reação de Moro e o rompimento de tom
Se a Fiep respondeu tecnicamente, com nota e auditoria, a reação política mais dura veio de Sergio Moro. Em publicação nas redes sociais, o senador atacou diretamente Rangel, lembrando a derrota dele na disputa pela prefeitura de Ponta Grossa em 2024 e chamando-o de "serviçal da mentira" — um tom raramente visto entre parlamentares do mesmo espectro político estadual, e que expôs o quanto a disputa em torno da Fiep já havia extrapolado a discussão orçamentária para se tornar um capítulo do racha entre os grupos que hoje disputam o Palácio Iguaçu.
O apoio institucional a Vasconcelos
Enquanto a polêmica corria nos corredores da Alep, entidades do setor produtivo se posicionaram publicamente ao lado do presidente da Fiep. A Federação do Turismo do Paraná (Feturismo) divulgou nota defendendo a autonomia da federação e classificando as críticas como tentativas de desgaste político-institucional, argumentando que práticas desse tipo comprometem a relação entre setor produtivo e poder público — e que a avaliação da gestão de uma entidade como a Fiep, que representa milhares de empresas e trabalhadores, deveria ocorrer internamente, e não por pressão político-eleitoral externa.
Perguntas frequentes
›Qual foi a denúncia inicial sobre os gastos da Fiep?
O deputado Marcelo Rangel afirmou que a Fiep gastaria R$ 53 milhões com serviços de jardinagem em 2025, o que foi rapidamente contestado pela federação.
›Como a Fiep respondeu à denúncia de gastos?
A Fiep informou que os R$ 53 milhões resultavam de um erro de classificação no Portal da Transparência, onde contratos de facilities foram lançados incorretamente como 'jardinagem'.
›Qual o valor real de gastos com jardinagem da Fiep?
Segundo auditoria interna da Fiep, o valor efetivamente destinado a jardinagem pagos entre 2024 e 2025 foi de aproximadamente R$ 4,3 milhões para todo o sistema.
›Qual foi a motivação política por trás da denúncia contra a Fiep?
A denúncia aparentava detratar o nome de Edson Vasconcelos, presidente da Fiep, como possível candidato a vice na chapa de Sergio Moro para as eleições de 2026.
›Como Sergio Moro reagiu à denúncia de Marcelo Rangel?
Sergio Moro atacou diretamente Rangel nas redes sociais, chamando-o de 'serviçal da mentira' e lembrando sua derrota na disputa pela prefeitura de Ponta Grossa em 2024.








